Balada segura pra quem?

Por Gustavo Farezin

Ao fechar a última cortina de ferro do bar onde trabalho, uma guria chorava escorada na porta. Lágrimas de desespero. Pedi-lhe licença pra terminar o meu serviço, mas não pude ignorá-la. Ainda sou humano.

Não era a primeira vez que a barreira da Brigada Militar executava a operação Balada Segura, que fechava a rua para pegar motoristas alcoolizados. E quem mais se opusesse a eles.

“Prenderam meu amigo. Ele não fez nada. Nem estava dirigindo. Algemaram-no e o colocaram num camburão.”

“Entra, vamos tomar algo.”

Era por volta das 2 horas da madrugada, horário permitido pelo alvará. Meu colega de trabalho havia comentado sobre o exagero no número de brigadianos expondo metralhadoras na nossa rua. Um cliente nos falava que a polícia atirara num carro que não parara na blitz da semana e que o fato estava repercutindo. Logo depois disso entraram no bar três pessoas de uma mesma família, pedindo que ligássemos pra RBS, pois o que estava acontecendo lhes faziam lembrar os dias da ditatura.

Mas eu só associei lágrimas à polícia, quando no primeiro gole de água os amigos da guria entraram no bar. Abraçaram-se. As mulheres em pranto falavam sem parar. O desespero era grande. Como caça fugida da presa eles se consolavam em refúgio.

O cara que tinha sido pego pediu uma ceva. Bebeu o primeiro gole com cara de estudante e refletiu. As gurias começaram a falar enfaticamente e toda a ação foi relembrada em detalhes. O brigadiano partira pra cima da namorada do rapaz por que ela filmava o sargento dando ordens de prisão aos que protestavam contra o abuso de poder. O aparelho foi despedaçado no chão. Aí o diálogo passou a gritos de ofensa que só foram calados no camburão.

Fica a pergunta: as ruas são violentas por causa ou pela falta de policiamento?

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