Meio de campo entre os orixás e os homens, é exu que conhece e é dono das encruzilhadas, que abre e fecha caminhos. Figura controversa, orixá do movimento e considerado como o grande trabalhador da espiritualidade, é comum ouvir do povo que é do Axé que sem Exu não se faz nada. Esse texto podia falar sobre a religião afro no Brasil e a demonização que ela sofreu durante anos, mas esse texto é sobre música.

Talvez você nunca tenha ouvido falar de Diogo Alvaro Ferreira Moncorvo, mas precisa ouvir Baco Exu do Blues. Diogo, rapper baiano, assume esse codinome mais do que simbólico e poderoso em sua veia musical, que é expressa com toda desenvoltura e representatividade.

Entre uma rima e outra, talvez você já tenha topado em algum meme ou tweet com a frase “Bebendo vinho, quebrando as taça”, mas isso é privilégio de quem é adepto dos 280 caracteres mais criativos das redes sociais. O fato é que Exu saiu da simplificação dos memes e ganhou visibilidade digna de hype com seu novo álbum, Bluesman, lançado no dia 23 de novembro deste ano.

Ouça abaixo enquanto lê este texto:

Pode ser hype, mas é digno e não está no topo à toa. Dê uma chance e atente para a crítica social que, na verdade, ele já mostrava na época de “te amo desgraça” mas poucos chegavam até a estrofe que cantava um ódio parecido pelo mundo, narrava a correria da polícia pela rua e aviõezinhos do tráfico.

O mesmo rapper que canta o amor dá voz e rima à depressão, identidade, o caos urbano, a religiosidade e a realidade brasileira com tanta naturalidade quanto o tom crítico e ácido que adota em cada linha.

Não adianta demonizar o jovem de 22 anos porque o local de fala não podia ser mais apropriado. O que poucos percebem é que a saúde mental é um tema que perpassa o disco. O próprio rapper afirmou em sua conta pessoal no Instagram: “Queria deixar claro que o Bluesman é um disco sobre saúde mental dos negros, é um trabalho pra fortificar os nossos!!”.


Trecho retirado do filme de Bluesman:

A prata é um metal com poder de reflexão muito elevado. Do latim argentum, significa brilhante. Nossa pele é de prata. Ela reflete luz. Um brilho tão intenso que eu lhe pergunto: ‘por que o ouro é tão querido, e a prata subvalorizada?’ Alguns vão dizer que é porque a prata é encontrada com mais facilidade. Reflita.

Baco é certeiro ao criticar a invisibilidade e a questão cultural de embranquecer tudo que é de origem negra para que se torne palatável a uma sociedade que nega, mas é racista (basta ler um pouco para perceber isso, não é mimimi, é sociologia. Jessé Souza é a dica de leitura da vez). O local de fala não podia ser mais adequado para tratar desses assuntos em um país que aboliu a escravidão há apenas 130 anos, mas ainda naturaliza comportamentos discriminatórios.

Cercado de metáforas, Baco mira e acerta em cheio na ferida. Blues, o ritmo que nasceu no extremo sul dos Estados Unidos através do lamento dos negros escravizados nas plantações de algodão, ressignifica-se nas palavras e entrelinhas do compositor que venceu o prêmio Multishow de Música Brasileira na categoria artista revelação.

Baco Exu do Blues

Quem é da religião, dirá que 2018 é regido por Xangô e Iansã, pode até ser, mas não faltam motivos para afirmar que o ano foi de Exu, o compositor que, assim como entidade que lhe nomeia, foi mensageiro de muitas demandas.

A música que leva o nome do álbum, por exemplo, é um desafio. Ouse ser mais certeiro que Moncorvo ao descrever simultaneamente o que é blues, invisibilidade e preconceito:

Eu sou o primeiro ritmo a formar pretos ricos
O primeiro ritmo que tornou pretos livres
Anel no dedo em cada um dos cinco
Vento na minha cara eu me sinto vivo
A partir de agora considero tudo blues
O samba é blues, o rock é blues, o jazz é blues
O funk é blues, o soul é blues
Eu sou Exu do Blues
Tudo que quando era preto era do demônio
E depois virou branco e foi aceito eu vou chamar de Blues
É isso, entenda
Jesus é blues
Falei mermo

O primeiro disco solo foi lançado em 2017 e batizado como Esú, alcançando boas críticas e lançando mão de citações literárias. Há pouco mais de um ano ele transcendia as questões musicais para explorar o cinema e a fotografia em consonância às suas rimas. Agora, o compositor mostra o amadurecimento construído enquanto transitava desde os samples de Martinho da Vila e Novos Baianos aos riffs de Rage Against de Machine.

Em 2018, ele fez mais do que manter as múltiplas linguagens para passar a sua mensagem. Não basta, para Moncorvo, o ritmo e a rima visceral, ele ainda materializou sua visão no clipe que você pode conferir abaixo.

A releitura de Donald Glover é só a ponta do iceberg, quem ouve a música e vê o clipe pode ir muito mais além: até onde sua visão está viciada e te levou a acreditar que o final do clipe não seria tão feliz?

Do minotauro de Borges aos Girassóis de van Gogh, passando pelo pedido de desculpas à Jay Z (who?), Baco é mais que o Kanye West da Bahia. É brasileiro, é preto e prata, sentiu a pele queimada pelo amor e pode até ser o preto mais odiado que você vai ver, mas não poderá negar que é um artista e tanto porque rima como se fosse o BB King solando.

Baco Exu do Blues
Bluesman (2018)

O povo do axé estava certo, sem exu não se faz nada e a música brasileira precisava de um exu. É rap brasileiro, é tudo blues, o ritmo de Diogo não tem medo de mencionar Exaltasamba e beber de fontes aclamadas porque, acima de tudo, é uma narrativa musical para inquietar os ouvidos. Se não inquieta, amigo (a), olhe bem com ao seu redor porque você sofre de miopia social.

No final das contas, Saramago tinha razão ao dizer “Se podes olhar, vê. Se podes ver, repara.”. Ou, nas palavras de Exu: “apague a luz pra me entender, entenda a África pra me entender”.

Caroline Domingos

Caroline Domingos

É jornalista, estudante de Letras, pesquisadora noAcervo Literário Josué Guimarães.
Caroline Domingos

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