O groove é uma instituição que prega o máximo respeito. A onda que emite as notas Funkeadas só faz efeito quando o slap surge com sentimento. É como um fluxo de energia que possui poderes (comprovados por nomes como Geroge Clinton), funcionando como uma força superior que emana os mandamentos do ritmo, utilizando os corpos celestes e humanos como amplificadores.

É uma ciência das expressões corporais que obriga as pessoas a levantarem, mesmo quando um determinado público está vendo um show sentado. Afinal de contas, pra que cadeiras quando se tem o Funk? A educação para com esse dogma se presta justamente ao contrário, aliás, se você não sabia disso, pegue um caderno e anote.

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Para com swingueiras celestiais, é obrigatório se levantar. Sei que parece loucura, pois existe uma palavra de ordem na hora de um espetáculo, mas quando o baixo chama na jam, rapaz, faça igual o Curumin em seu último show no Sesc Consolação, coloque a plateia pra dançar e o faça em qualquer lugar, nem que seja no teatro.

Começando o ano de 2016 com a classe que já lhe é peculiar, o músico paulista voltou à São Paulo munido de sua (fantástica) banda e cumpriu um nobre desafio de forma desconcertante: mandar os temas mais finos do apoteótico Stevie Wonder, e ainda dar aquele toque do Chef!

Line Up:
Curumin (bateria/vocal)
André Lima (teclados)
José Nigro (baixo)
Lucas Martins (guitarra)

Isso mesmo, no dia 10 de janeiro de 2016, Curumin & banda lotaram o teatro das dependências do Sesc Consolação e o resto, bom, a grooveria colocou a casa no chão. Com uma banda compacta, os ácidos teclados de André Lima, o baixo cremoso de José Nigro e a rifferamática guitarra de Lucas Martins, Curumin conseguiu, mesmo de maneira compacta, eternizar as nuances de um som que brilha mais do que uma orquestra.

Com uma performance impecável na bateria (isso sem falar na voz), esse show foi uma amostra do feeling que esse cidadão possui. Foram 90 minutos que, em virtude do tempo, só não se perderem nas rotações do relógio por causa do horário, porque o show passou como aquela primeira brisa da manhã, sim, aquela mesmo, que sempre bate ao som de “Happier Than The Morning Sun”.

Curumin - Iemanjá

Mexer em clássicos ou em temas dessa magnitude é sempre complicado, afinal, baluartes como Stevie Wonder possuem algo que não é explicável, e que, sejamos francos, só seres cósmicos sentem. Mas a forma como os temas foram tocados, a pegada, a fidelidade nos timbres desse verdadeiro Moogie-Boogie de camadas e texturas, e o tesão da banda… Pouca elegância é bobagem.

E mais do que emular os hits mais óbvios, esse trabalho (além de ser digno de um registro), é uma prova do que a paixão pela música é capaz de fazer. O feeling revira nossa mente e nos faz ir além, nem que seja para pagar tributos aos grandes signos de uma música que, mais do que um cover, foi temperada com os maneirismos do próprio Curumin, de sua (suprema) nata instrumental e de seu forte elemento Roots.

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Além de versões quentíssimas para baladas clássicas e outros hits de um dos maiores músicos do planeta, a curadoria na hora de elencar os sons foi absolutamente nobre. Com uma lucidez que selecionou os mais finos sons de lado B para equalizar com os épicos de lado A, todos os envolvidos fizeram exatamente o que Wonder prega em seus sons: Boogie On!

Fritaram mesmo e sentiram a música, apoiando-se nas cadeiras (quando necessário), para que assim, a levada de temas como ”Master Blaster” e ”Living For The City”, não rachasse o assoalho. O teto sentiu as improvisações de Soul, meu caro, mas resistiu e já está pronto pra outra. Chega mais Curumin!

 

Trechinho de hoje….

Publicado por Curumin em Domingo, 10 de janeiro de 2016

Guilherme Espir

Publicitário em formação, zappamaníaco e escritor de fundo de quintal fissurado em música tal qual um viciado à espera da próxima dose, neste caso aguardando em abstinência para o próximo disco.