O improviso diz muito sobre a concepção de um artista. A urgência das notas que surgem no calor de uma jam, a liberdade de poder experimentar… Todas as peculiaridades que formam um conceito sonoro acabam se transformando no cartão de visitas de uma banda. É interessante poder observar o crescimento dessa sonoridade, pois o improviso se funde com o entrosamento e é aí que a coisa começa a ficar interessante.

Foto: Guilherme Espir

O desafio, no entanto, é conseguir um formato que consiga – ainda que seguindo um script – surpreender o público com um show bem roteirizado. É um desafio e são poucas as bandas que musicam planos de fundo capazes de se recriarem com frescor, mesmo que você já tenha visto o set algumas vezes.

Pra resumir os 2 parágrafos acima, bastaria ter escrito “Átrio Jazz”, mas o contexto é importante para entender por que o show do trio foi um dos destaques do último final semana de Jazz Mansion. Combo formado por Rob Ashtoffen (baixo), Renato Pestana (bateria) e Gabriel Gaiardo (teclados), os meliantes tiveram uma bela sacada.

Foto: Guilherme Espir

Com uma proposta de fundir seu vasto repertório Jazzístico com o tom dos grooves contemporâneos, o Punk Jazz do grupo encontrou o Hip-Hop e desde a criação do projeto – no começo de 2019 – tem sido um desafio não sair do show impressionado.

Nesse último final de semana o público teve mais uma prova disso, em pleno quintal da Mansão GAP. Com 2 shows completamente diferentes, o trio mostrou uma dinâmica e um senso de interação muito inteligente e tudo isso seu deu graças ao quê colaborativo desse projeto. No sábado o trio foi acrescido de Dow Raiz, Laylah Arruda, Zudizilla, Nego Max e Neto (Síntese). Domingo o groove já mudou de forma assim que a saxofonista Sintia Piccin pisou no palco, ao lado da Marina Peralta e o Dow Raiz na dobradinha.

Foto: Guilherme Espir

É até engraçado retratar a distância de um show para o outro. No sábado, por exemplo, o que deu o tom foi a belíssima voz da Laylah Arruda, mediando o flow do Dow e do Zudizilla. Com aquele Reggae embalado pelo fino do Roots da cantora, Dow teve espaço pra explorar os contos do Mr. Misisa e “As Profundezas de um Tempo Danger” – EP lançado em 2019 – enquanto Zudizilla veio seco nos versos de “JazzKilla” – EP também lançado esse ano – com uma participação incendiária do Neto e do Nego Max.

O Wu-Tang Clan coexistiu sob o mesmo teto do Jazz. Esse é o tamanho da ponte e foi muito interessante ver como o instrumental construiu esse caminho pra fazer um show com músicos tão distintos funcionar. Teve peso, Funk, atitude e zero hype. No domingo a proposta foi um pouco menos Punk, mas com um charme de fato irresistível.

Foto: Guilherme Espir

A presença da Sintia no saxofone enriqueceu o som e deixou o instrumental ainda mais interessantes em termos de dinâmica. Com uma abordagem sempre bastante oportuna e muito fluida, foi nítido como a postura do Dow Raiz mudou, por exemplo. Acompanhado por Marina Peralta, o Jazz foi Reggaedo pela doce voz da cantora sul mato grossense. Dow, por sua voz, aproveitou para explorar seu repertório mais melódico e teve sinergia com a cantora e sua cativante presença de palco.

Foto: Guilherme Espir

Foi um encontro muito heterogêneo. Foram 2 dias de evento, mas a abordagem e a liberdade dessa proposta são tão genuínas que chega a ser difícil não imaginar isso em estúdio. Seja com DJ, participação ou uma nova proposta de repertório – mais até do que promover essa mistura de Rap com Jazz – o som do Átrio conseguiu desenvolver uma linguagem capaz de dialogar com esse universo. É uma proposta que precisa ser vista ao vivo. O público da Jazz Mansion sentiu o groove.

Guilherme Espir

Publicitário em formação, zappamaníaco e escritor de fundo de quintal fissurado em música tal qual um viciado à espera da próxima dose, neste caso aguardando em abstinência para o próximo disco.