O Jazz tem algumas convenções meio batidas. Talvez a maior delas seja o lance do show ser dividido em duas entradas. Tem uma galera que curte por que rola um intervalo, outros mais viscerais já pensam que esse break dá uma quebrada no groove e existe ainda um terceiro grupo que faz o show num tiro só é já era. É poucas.

Foto: Guilherme Espir

Foi nessa pegada – ao melhor estilo sem cuspe e nem massagem na mensagem – que o Zudizilla fez da noite de quinta-feira, 29 de agosto, seu quintal, seu Jazztrilla, em pleno Jazz nos Fundos. Ao lado do Átrio, o negrão de Pelotas (RS) recriou o clima do seu lançamento mais recente – o excelente “JazzKilla” – trampo liberado em fevereiro de 2019 (via Escápula Records), com base numa live session feita ao lado do Kiai Grupo, banda que acompanhou a roupagem orgânica do instrumental.

Foi interessante observar esse show com o Átrio no plano de fundo Jazzístico. O grupo formado por Gabriel Gaiardo (teclados/sintetizadores), Renato Pestana (bateria) e Rob Ashtoffen (baixo) fez miséria com um repertório cabuloso.

Foto: Guilherme Espir

No melhor estilo perifajazz, o quarteto fez um set só, com 90 minutos de som, sem enrolação, direto e reto. Com temas como “Faça a Coisa Certa” e “Nuvens”, os versos do Zudi mostram um repertório rico, capaz de condensar o Spike Lee e as pirações do universo Otaku no mesmo beat, sem nem pestanejar.

Com uma fluência muito espontânea e tão livre quanto o Jazz que fazia o background sonoro, o meliante ainda trouxe uma galera pra somar no groove. Nego Max, Neto (Síntese) e Dow Raiz colaram pra uma participação cavernosa. É como o próprio compositor diz: “Isso é mais do que inventar umas rima, é manter vivo o Rap”.

Foto: Guilherme Espir

Mais do que um showzaço com um dos melhores Rappers da cena autoral – fora os convidados – e o instrumental do Átrio, o grande lance desse projeto é encurtar as distâncias entre o Rap e o Jazz, mostrando como eles são mais próximos do que se imagina.  Misturar o Jazz com essa linguagem abre muito espaço no som e a cada noite é interessante observar como essa visão é expandida pelos músicos.

Foto: Guilherme Espir

Os teclados estavam especialmente suculentos. Com um belo aditivo dos synths, Gaiardo soube preencher os espaços de maneira ácida. Com uma classe digno de um Jazz Bass, Rob manteve o groove no tom como um Lord inglês, enquanto Pestana alternou o peso da bateria com um trampo de caixa que foi o mais puro veneno.

Esse projeto veio pra ficar. O Wynton Marsalis ia adorar HAHAHAHA 

Guilherme Espir

Publicitário em formação, zappamaníaco e escritor de fundo de quintal fissurado em música tal qual um viciado à espera da próxima dose, neste caso aguardando em abstinência para o próximo disco.