show Matisyahu

Todo músico possui seu porto seguro. Um norte que sempre surgirá para acalmar os males da tormenta. Um campo neutro dentro de um redemoinho intenso de emoções e sensações, que mesmo colocando grandes mensageiros em frangalhos, consegue tirar o melhor deles, mesmo que à custo de muita penitência.

Veja o Matisyahu, por exemplo, o americano precisou reconstruir sua imagem nos últimos anos, e a batalha no fim das contas se mostrou muita mais interna do que externa. A imagem de um homem é um espelho de suas filosofias, e apesar de todos os conflitos, Matthew Paul Miller, continua sendo o Matisyahu, aquele bom e velho reggaeiro que colocou o Cine Joia no chão com uma potência digna da cultura Sound System made in Jamaica.

Foi difícil, sem dúvida alguma, a jornada é dolorosa, mas é notável observar como o dono do quipá mais raíz de toda a Jerusalém, parece espantar a negatividade com a mesma classe de sua levada no Beatbox. Os ventos da renovação chegaram junto com mais um showzaço em São Paulo, parecia até que estávamos no Stuub’s. O Texas virou São Paulo por duas horas.

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Line Up:
Matisyahu (vocal)
Aaron Dugan (guitarra)
Cyro Gomes (percussão)
Rob Marscher (baixo/teclado)
Tim Keiper (bateria/percussão)

A energia que envolveu Matisyahu e banda foi quase surreal. Fora que ver um show desse cara com uma banda desse porte, completinha e entrosada, rapaz, a pregação atingiu outro nível e nos faz questionar seus reumos criativos em discos recentes, por que são performances como essa que evidenciam o quanto esse cara é especial.

O show foi intenso, sinuoso, cheio improviso nas jam’s e tirando uma pequena pausa do meio pro final da noite, os sons se desenrolavam uns nos outros com uma fluência fantástica. Teve de tudo, desde uma percurssão cavernosa por parte do brasileiríssimo Cyro Baptista, até um baixo que, sempre quando requisitado, parecia que ia atravessar o seu peito.

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Em todas as faixas o messia dos Hebreus tocou com a convicção de alguém que busca guiar o mundo para sua própria utopia. A sinergia entre banda e platéia também atingiu um patamar impressionante, era possível cortar a vibe com uma faca.

O mestre dos 13 atributos da misericórdia subiu no palco numa noite inspiradíssima. A química de seu trio instrumental beirou o ridículo. No baixo, Rob Marscher criou uma muralha na parede do groove, e enquanto revezava o feeling nos teclados, cumpriu seu papel com maestria: acompanhou os tempos durante o show todo.

Na guitarra, Aaron Dungan deu uma aula. Seu timbre estava afiado, a paleta de pedais foi escolhida com muita sagacidade e o resultado foram solos sublimes, todos feitos graças a um estilo econômico, classudo e de fraseado corrente.

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Só que o maior absurdo estava no fundo do palco. Quase na penumbra de uma riqueza sonora sem tamanho, estava Tim Keiper, o grande trunfo da banda desse quarteto. Esse excelente baterista demonstrou uma precisão sem tamanho, e se o baixo, guitarra e teclado solaram tanto, foi por que esse cidadão preencheu todos os espaços.

Com um vigor assustador, Tim mostrou um talento que equilibriou a precisão dos tempos do Jazz e a sutileza bem marcada dos melhores mestres da percussão africana. As batidas fluíam como se a bateria fosse uma extensão de seu corpo, e o resultado foram 1200 cabeças balançando, segundo a Skol Music.

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Matisyahu cresceu como músico, letrista e pessoa. Ele nunca foi uma promessa, nasceu como uma realidade perpétua em busca de algo maior. Algo que ele ainda não achou, mas que sem dúvida alguma segue procurando, e que mesmo sem fazer ideia do que é, sinto que esteve presente durante esse show.

Seja ao som de ”Lord Raise Me Up”, ”Running Away”, ”Warrior” ou ”So High So Low”… Meu amigo, no fim das contas o tempo e as faixas foram só um detalhe, como se tudo fosse mais um capítulo enraizado na cultura de um cara que quer ser apenas um instrumento.

A vida é uma viagem transcendental, e que ao som desse senhor, a trilha sonora nos ajuda a caminho rumo ao virtuosismo. Pulse no baixo e feche os olhos, rumo ao roots do infinito.

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O clima de um show… São muitos, parece um giro pela teia sazonal das estações do ano, mas a grandeza de um momento desse porte é justamente essa: observar, ouvir e sentir as mudanças.

E a riqueza de sensações experimentadas durante o show do Matisyahu foi tanta, que a batida desse Ragga-Dub merecia um set de fotos exclusivo.

Guilherme Espir

Publicitário em formação, zappamaníaco e escritor de fundo de quintal fissurado em música tal qual um viciado à espera da próxima dose, neste caso aguardando em abstinência para o próximo disco.