Se me pedissem para dar uma nota ao nível de cultura que é visto, sentido, e emitido pelas ondas sonoras das bandas brasileiras atualmente a minha nota seria zero. Não qualquer zero, um redondinho, feito com a perfeição de um compasso. Ontem, estava escutando um dos meus músicos preferidos, o grande Chico Science, e como sempre acontece quando aperto play em suas bolachas, entrei em um transe profundo de pura reflexão.

Chico nos deixou há mais de 15 anos, mas mesmo assim seu trabalho continua EXTREMAMENTE atual. Cada palavra, cada sílaba expressa o caos urbano, a alienação de toda uma nação, nossa falta de respeito para com o meio ambiente e o mais importante, uma tentativa de valorização de nossa própria cultura.

Quando comecei a desbravar a obra de Chico (por indicação de meu pai), me lembro que encontrei um mundo a parte dentro de sua música. Nunca tinha ouvido nada parecido, e a voz forte do pernambucano, aliada a letras sensacionais e uma cozinha fervorosa, derreteu meu cérebro por meses e meses a fio.

Cheguei a um nível onde tinham pequenos fragmentos de letras do cara escritas no meu caderno, gostava de lê-las soltas, ali, em silêncio, sem o Groove… Parecia que elas tinham ainda mais efeito sobre mim. Chico não falava português, falava brasileiro, não fazia música com a intenção de se tornar uma celebridade, tinha outras ideias, queria mostrar o Brasil de um jeito ainda não visto por nós mesmos, queria mudar nosso pensamento no sentido literal da palavra, queria ir além.

Chico Science

A mudança começou em 1966 quando Francisco De Assis França (Chico Science) nasceu. Olinda nunca registrou um céu tão lindo quanto naquele dia… Desde cedo o pernambucano perambulou pela música, desbravou o universo do Hip-Hop, sentiu no peito o swing da música negra e absorveu o conhecimento do Groove Nordestino como poucos… Mas ainda faltava alguma coisa… E é aí que o Maracatu se encaixa como uma luva.

Com o Maracatu, Chico uniu o útil ao agradável, fez uma cozinha única que, além de destoar de tudo que existia naquele tempo, era uma plena extensão da mente criativa do músico. O barulho que o Movimento Manguebeat estava fazendo era ensurdecedor demais para ser ignorado.

E para mostrar ao mundo esta maravilha e oficializar que o mundo seria engolido pela revolução dos caranguejos movidos ao maracatu atômico de Fred 04 (Mundo Livre S/A) e seu fiel comparsa Mr. Science, ambos foram à luta e fizeram a missão com um manifesto. Em 1992 estava tudo lá, pronto, pra ninguém botar defeito, o manisfesto – “Caranguejos com Cérebro”, com o objetivo de proteger o Mangue e tentar mostrar que a música tinha que ser tão única quanto a biodiversidade deste bioma, o que fez de Pernambuco um efervescente centro musical, coisa que não mudou até hoje, sempre com muito sons de qualidade, exportando ao mundo cultura de verdade com resquícios em todos os segmentos, até nas artes plásticas. Chico Science encabeçou este movimento de maneira única.

Nação-Zumbi---Afrociberdelia
Chico Science & Nação Zumbi – Afrociberdelia (1996)

Track List:

1. Mateus Enter
2. O Cidadão Do Mundo
3. Etnia
4. Quilombo Groove
5. Macô
6. Um Passeio No Mundo Livre
7. Samba Do Lado
8. Maracatu Atômico
9. O Encontro De Isaac Asimov Com Santos Dumont No Céu
10. Corpo De Lama
11. Sobremesa
12. Manguetown
13. Um Satélite Na Cabeça
14. Baião Ambiental
15. Sangue De Bairro
16. Enquanto O Mundo Explode
17. Interlude Zumbi
18. Criança De Domingo
19. Amor De Muito
20. Samidarish

Line Up:

Chico Science (vocal)
Dengue (baixo)
Gilmar Bolla 8 (alfaia)
Gira (alfaia)
Jorge Du Peixe (alfaia)
Lúcio Maia (guitarra/violão)
Pupilo (bateria)
Toca Ogam (percussão/bateria)
Fred 04 (cavaquinho)
Marcelo D2 (vocal)
Gilberto Gil (vocal)
Bidinho (trompete)
Tiquinho (trombone)
Serginho Trombone (trombone)
Marcelo Lobato (teclado)
Lucas Santana (flauta)
Hugo Hori (flauta/saxofone)
Gustavo Didalva (percussão)
Eduardo DiB (guitarra Dub/metais)

Não vou falar faixa por faixa, pois seria repetitivo demais, quero apenas que os senhores escutem o disco. Este aqui façam de uma maneira diferente, reservem um tempo para a genialidade deste Monstro da música, admirem a cozinha que o Nação Zumbi adicionou nas ideias revolucionárias do mestre do Mangue Beat.

Acima de tudo admire um GÊNIO em sua mais pura e nobre simplicidade, que com apenas um microfone nas mãos parecia solucionar os problemas do mundo inteiro com sua poesia de Cordel… Não era necessário ter um carro importado ou um terno Armani, com um Conga no pé e um Landau para escutar música a coisa já estava perfeita, era música pela música do jeito que deveria e deve ser, aliás parafraseando Chico: “A acústica do Landau é foda!” Rest In Peace, Chico Ciência!

Deixar que os fatos sejam fatos naturalmente, sem que sejam forjados para acontecer,
Deixar que os olhos vejam os pequenos detalhes lentamente.
Deixar que as coisas que lhe circundam estejam sempre inertes, como móveis inofensivos, para lhe servir quando for preciso, e nunca lhe causar danos, sejam eles morais, físicos ou psicológicos.

Chico Science

Guilherme Espir

Publicitário em formação, zappamaníaco e escritor de fundo de quintal fissurado em música tal qual um viciado à espera da próxima dose, neste caso aguardando em abstinência para o próximo disco.