Foto: FotografiaTranscendental

Verão. Vários graus. Tem dia que passa dos 30 e cinco, noutros suamos até os 40, mas em São Paulo, bom, a vida é assim, quem não tem praia caça com groove. E foi exatamente com esse pensamento que o Bourbon Street juntou os cacos nesse escaldante verão, e chamou a responsabilidade do Funk pra segurar o termostato com classe.

A receita foi simples, a curadoria da casa passou a mão no celular e depois de duas chamadas bastaram 5 minutos de jam verbal para selar o esquema. Sim, uma das maiores Big Bands de sampa foi bater cartão num dos espaços mais tradicionais da cidade. Sem essa de 9090, a equipe do Bourbon Street sabe que pra ter o Funk Como Le Gusta no palco, um interurbano é puro detalhe!

E foi com a casa lotada que a mistura de Jazz, ritmos tupiniquins e muito groove, colocou a casa no bolso. Chamar de banda chega a ser sacrilégio, o FCLG é uma orquestra, e foi sensacional ver que o público veio em peso, largou as mesas e foi pra pista rachar o assoalho dessa grooveria eletroacústica.

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Foto: FotografiaTranscendental

São mais de 20 anos de estrada. Uma parte do público não era nem nascida quando esses caras já desafiavam a química do Jazz-Funk. São 4 discos autorais debaixo do braço, muita história e uma riqueza sonora que para essa session de improvisos teve o disco mais recente da banda (o quarto de estúdio), ”A Nave Mãe Segue Viagem”, como trilha sonora.

E a força do repertório… Gravado entre setembro de 2014 e março de 2015, o baile de ”A Nave Mãe Segue Viagem” ainda contou com um público quentíssimo. Uma plateia fervilhante que além de dançar muito, sabia a letra dos novos sons de cor, e aí meu amigo, foi só se perder nas notas.

Para os mais refinados teve um combo de metais endiabrados. Pensando nos fritadores, rolou uma dose venenosa de guitarras, uma tecladeira insana e aquela percussão que joga faísca até no prato da bateria.

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Foto: FotografiaTranscendental

A qualidade de som estava soberba, todos os instrumentos tinham espaço na parede sonora, e depois da primeira música os caras embalaram mais que Opala na descida. Foram mais de duas horas de show e mesmo depois do fim, os presentes ainda pulsavam para a cremosidade do baixo. Funk Como Le Gusta. Summer Como Le Gusta. Se tem Funk rapaz, não tem quem não gusta.

Entrevista:

1) Em 2015 vocês lançaram o quarto disco de inéditas (”A Nave Mãe Segue Viagem”). Como foi o processo de gravação?

Foi um processo bem agradável e objetivo. Nós entramos pra gravar o disco porque sentimos que tinha bastante material guardado, existia também um intervalo longo sem lançar material inédito (desde 2011 com ”A Cura Pelo Som”).

O processo de gravação foi muito tranquilo, algumas composições foram finalizadas no estúdio, e o disco foi finalizado entre setembro de 2014 e março de 2015. E a improvisação, que é a nosso essência, aparece bastante também.

2) Como é mesclar o Funk com tantas vertentes? Como é essa curadoria para moderar as influências?

É tudo muito natural, seja tocando Funk Jazz… Nós gostamos muito de música e essa mistura nasce sem esforço, o sentimento e o improviso servem como guia e todas essas experimentações são caminhos que se complementam.

3) O nome do último disco e essa paixão que vocês nutrem pelo Funk, em algum momento, é inspirada na herança do mestre George Clinton?

A questão do nome é que a música nos faz vivenciar uma questão de conexão. Nós como banda e individualmente tentamos mostrar que existe uma conexão na música e isso engloba tudo, seja a natureza.

Não que não exista uma influência de nomes como o do George Clinton, mas o contexto aqui é muito diferente. Nós abordamos a questão da conexão com a alma, não com algo intergalático.

4) O Funk passou pro várias mudanças desde seu surgimento e apogeu. Qual o segredo pra acompanhar tantas mudanças em meio a essa modernidade e infinidade de recursos e trabalhar nesse formato de Big Band?

A nossa essência como banda é a improvisação, fazer um baile mesmo. Os grandes mestres, como o Miles Davis e o John Coltrane já fizeram a parte deles, agora cabe a nós continuar levando a música pra outro ponto, inspirando mais pessoas e acompanhando as novas tecnologias pra que que a gente continue se juntando aos nossos amigos pra fazer um som.

Porque a música não para, se você trancar ela num quarto ela vai ricochetear até conseguir sair. Não importa se for um Jazz ou até mesmo o Funk que você citou, o caminho é continuar experimentando e deixar um legado para as próximas gerações.

Guilherme Espir

Publicitário em formação, zappamaníaco e escritor de fundo de quintal fissurado em música tal qual um viciado à espera da próxima dose, neste caso aguardando em abstinência para o próximo disco.