A culpa é toda dela. Ela nem tinha sobrinhos e deixava a turma toda chamá-la de tia só porque achava que era carinho, mal sabia ela que eram os pais que diziam “vai lá com a tia”. Logo ela, professora diplomada!

Mas a verdade é que ela nem queria ser professora, queria ser médica, ser chamada de doutora. Doutora! Quem permitiria? A família só lhe permitiu o magistério e olha lá, já bastava essa vergonha! Cinquenta anos atrás, quando ela vestiu a túnica e pegou o diploma na mão, o fotógrafo apareceu para registrar o momento e implorou por um sorriso que nunca recebeu. Ficou lá no porta retrato a vergonha da família, ora, Sônia estava diplomando-se em solteirona, só pode! Onde já se viu uma mulher “bem nascida” querer trabalhar, dizer que quer ter uma profissão, ser independente, ser doutora! Quando ouviu o desejo de doutoramento da filha, dona Isaura desmaiou! “Ela quer acabar comigo!”, disse a velha que cheirava uma mistura de laquê e cigarro.

Sônia não foi doutora, foi aquela professora que os alunos chamavam de tia mesmo sabendo que não eram sobrinhos dela. Apesar do “vai lá com a tia” que era obrigada a ouvir diariamente, ela tentava ensinar algo de bom para os pirralhos que lhe despertavam sentimentos quase incompreensíveis para quem nunca esteve em uma sala de aula, do amor à agonia com muitos momentos de enxaqueca e incredulidade, ela estava constantemente cercada por pequenos indomados. Quem olhava para aquelas carinhas esperando pela tia Sônia não era capaz de imaginar que os pais deles choravam no período de férias. Pelo menos uma vez por ano, coincidentemente nas férias, os pais daquelas crianças valorizavam a professora mais do que nunca na vida e pensavam “Meu Deus, o que eu não daria para essa criança estar no colégio?” ou “como aquela mulher aguenta”, pena que se as tias Sônias vão para a rua bater sineta pedindo melhores condições de trabalho (para aguentar o que os pais não aguentam), o jogo vira e o nível desce.

– Ai, mas ela gosta tanto de ti! Chegou a ficar doente nos primeiros dias de férias!

Educadamente, tia Sônia mentia que tinha uma viagem, desligava o telefone e mandava aquele bando de preguiçoso aprender a ser pai. Ela mal sabia que era a culpada da preguiça de alguns futuros pais desde o dia que deu a aula do feijãozinho. Se ela soubesse, pegaria tanta raiva da semente de feijão que queimaria todas as sacas antes que fossem comercializadas.

Você lembra da aula do feijãozinho? Lembra quando a tia lhe entregou uma sementinha, disse que era para regar no algodão e que você veria o feijão crescer? Foi a tia Sônia! Para que ninguém ficasse triste, ela levou todos os feijõezinhos para casa, regou, garantiu que todos vissem a planta crescer. Pronto! Era o plano perfeito, nenhuma mudinha de feijão morreria e nenhum aluno choraria neste ano com o desastre do experimento. Ela devia ter deixado o Alberto chorar, não que ele merecesse e que fosse lá grande coisa de ruindade mas Alberto devia ter sido deixado sem o pé de feijão. Entenda, amigo: o que aquele piá de merda fez para o feijão crescer? Nada! Ao contrário dos outros que, mesmo com toda facilidade, demonstraram alguma preocupação, Alberto só queria puxar o cabelo das meninas e contar as vantagens sobre qualquer coisa. É de pequenino que se torce o pepino, mas ninguém percebeu. Ninguém torceu.

Se a tia Sônia tivesse deixado o feijãozinho dele morrer, talvez ele tivesse aprendido que a vida não é mágica. Agora ele tá lá,a melhor característica que Alberto tem virou estampa de camiseta em loja de departamento: embuste. Alberto achou que fazer a prova daria a ele o lugar no concurso, mas não deu. Um cotista tirou, né? Alberto pensou que pressionaria a namoradinha até ela ceder, mas era frescura dela. Claro. Assim como é claro que a culpa é da tia Sônia, porque alguém precisa levar a culpa e os pais é que não são culpados de nada, afinal de contas, essas escolas estão cada dia mais doutrinadoras, você não acha? Em casa é que ele não aprendeu a ser assim, imagina! Alberto é um bom filho, teve um forte exemplo de seu pai que nunca deixou faltar nada para nenhuma de suas amantes. Até respeito deu a todas elas, afinal de contas uma sabia da outra e ninguém reclamava, se quisessem chorar, que tivessem a classe de fazer escondido porque ele é que não sustentaria uma histérica. Ou três.

A culpa é da tia Sônia. Aquela mal amada, não é assim que você estava pensando? Albertinho tinha gênio forte, as meninas que faziam o que ele fazia é que eram umas mal educadas e bem que ele fez em rir delas, maltratá-las e até hostilizá-las quando ficou maiorzinho. Mas nem sempre tia Sônia foi esse poço de rivotril e que azar ela deu, tadinha. Ela rodou o Albertinho. Nem com toda ajuda com o feijãozinho o menino conseguiu fazer algo certo.

-Ele tem o gênio do pai mas é um bom menino. É genioso mas é muito esperto!

-Esperto só para o que não deve!

-É só um menino!

Virou e mexeu, Albertinho passou de ano. A mulher que defendeu o pequeno na verdade nem era mãe dele, era empregada, a mãe nunca podia ir em nada. Por que a vida é assim, você não acha? Os filhos, depois que desmamam, se criam sozinhos e o que pode ser tão difícil que a Neide não possa fazer? Vai cair a mão da Neide se ela não dormir em casa pra atender o Albertinho? A mão da Neide realmente não caiu, mas calejou de uma maneira… A defesa daquele dia, “é só um menino” foi ensaiada: era o que ela ouvia o pai do pirralho dizendo quando ele fazia as dele em casa.

Só um menino… Dona Neide se contorce no túmulo barato que lhe deram depois de anos sendo explorada pela família. Lá, do nada onde ela agora vive livre daquela peste chamada Alberto, ela pensa “é só um menino” cada vez que vê o filho da puta do Alberto achando que o filho dele não precisa de nada para viver. A pensão que cobram do Albertinho para o Junior é ostentação pra mãe dele comprar coisa pra ela, o menino não precisa de lanche, ele não precisa de remédio, ele não precisa de livro, ele não pode chorar porque ralou o joelho, a ex não pode se apaixonar por outro, o celular da namorada deve ser sempre atendido.

Só um menino. Tudo culpa da tia Sônia, porque alguém precisa ser culpado e a mulher já tá acostumada, né? É coisa de mulher. É coisa de menino… É tudo culpa do feijãozinho! Se o feijãozinho dele tivesse morrido e a tia Sônia tivesse dito pra ele que tudo na vida merecia cuidado, ele saberia que as coisas não acontecem por milagre e que ninguém aprende nada por osmose.

Agora lá está o Albertinho, um menino velho dirigindo um corolla porque ele ainda não descobriu que isso é coisa de velho, colocando o braço pra fora do carro, olhando a bunda das meninas que ele diz que “já aguentam” e fazendo de conta que o filho dele, assim como aquele pé de feijão, vai conseguir crescer sozinho enquanto uma mulher tem que fazer todo esforço que ele não vê e não reconhece que é necessário. Agora, ele está lá, discutindo meritocracia, lembrando de quando bateu panela e dizendo que o pai era um herói, que no tempo dele não tinha tudo isso que a ex tá cobrando, que criança precisa de amor. Amor pra ele é legenda de Instagram, né? Mas é só um menino.

Pobre tia Sônia que teve que carregar nas costas uma culpa que nem era dela, era do menino. Era do menino que o pai do menino nunca deixou de ser. Cresce, Albertinho, ninguém aguenta mais te carregar no colo.

Caroline Domingos

Caroline Domingos

É jornalista, estudante de Letras, pesquisadora noAcervo Literário Josué Guimarães.
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