seja bela e cala a boca

Atenção: o texto a seguir não poderá ser considerado mimimi pois não encontramos essa definição nos termos técnicos do cinema mundial. Há a definição de documentário e é sobre isso que você lerá nas linhas seguintes.

Com certeza você já conheceu muitas pessoas e, apesar de poder traçar paralelos e semelhanças entre elas, nós temos que concordar que cada indivíduo é um universo mui particular.

O universo feminino, então, mais particular ainda. Freud bem que tentou, mas não conseguiu explicar, e nem poderia: ele não era uma mulher. Mas, nos idos tempos de 1976, uma cineasta tentou explicar um pouco desses universos que se cruzavam em uma linha comum e coletou depoimentos de vinte e quatro atrizes para saber mais sobre o que aquelas mulheres pensavam e, principalmente, o que tinham a dizer sobre suas experiências profissionais.

Esse foi o empreendimento de Delphine Seyrig, a mulher que reuniu mulheres de diferentes nacionalidades, classes e vivências no documentário “Seja bela e cala a boca”. O trabalho de Seyrig ganhou notoriedade recentemente ao ser exibido em algumas salas culturais brasileiras, o que deu nova fôlego aos debates feministas, já que o documentário surge como uma forma de questionar o que mudou desde o seu lançamento até o nosso glorioso ano de 2019.

O filme, que conta com depoimentos de Jane Fonda, Shirley MacLaine, Marie Dubois, Maria Schneider, Juliet Berto, Patti D’Arbanville, Anne Wiazemsky e Ellen Burstyn, mostrou o ponto de vista das atrizes sobre os papéis mais comuns que eram chamadas para interpretar: personagens alienadas e estereotipadas.

Fica nítido que é um documentário com relatos negativos sobre como as mulheres eram representadas pela indústria cinematográfica em 1976. Até aí, nenhuma novidade para quem lembra do discurso de Meryl Streep no Globo de Ouro em 2017.

O documentário traz à tona os questionamentos sobre as mudanças e avanços que o cinema feminino trouxe para a atualidade. O velho – mas não desgastado – debate sobre o que é ser mulher e, principalmente, a relevância dos papéis femininos mais complexos para o debate de representatividade e feminismo. Ao lançar o documentário ao mundo, Seyrig inverteu um papel. A atriz estava acostumada a viver – e a trabalhar – de frente para as câmeras.

Delphine Seyrig deixou o mundo em outubro de 1990, aos 58 anos. De origem libanesa e família protestante, viveu na França e trabalhou com diretores renomados como Luis Buñuel e François Truffaut. O último filme no qual contracenou foi lançado em 1989, Johanna d’Arc of Mongolia, de Ulrike Ottinger, no qual interpretou Lady Windermere. A esta altura, a arte de Delphine já estava imortalizada em sessenta obras audiovisuais entre curtas, longas e demais produções para televisão francesa.

Uma das principais atuações da atriz está em Baisers volés (Beijos Proibidos, 1968, François Truffaut). Delphine Seyrig também participou do curta-metragem americano Pull May Dayse, celebrado como o manifesto da geração Beat, que foi escrito e narrado por Jack Kerouac.

Delphine fez história, arte, cinema e, literalmente, um documentário que deu voz a outras experiências femininas. Mesmo tão próximo de completar 30 anos da morte da atriz e diretora, o tema levantado por ela em 1976 não podia ser mais atual.

Caroline Domingos

É jornalista, estudante de Letras, pesquisadora noAcervo Literário Josué Guimarães.
Caroline Domingos