Ainda pequeno, ele via a rua escorrer ladeira abaixo e a sanga entrar em sua casa. Não era só a natureza, não era um motivo de comemoração ou comunhão com a natureza. Não, era a vila. Era o mundo cão se manifestando naquela rua abandonada por Deus, pelos homens da lei e do voto, aquela rua com casinhas de madeira que vieram de restos de outras construções já demolidas. Era ali que ele morava, na beira da terra batida de tom alaranjado e cheia de pedregulhos prontos para rasgar a carne dos meninos descalços ou furar os pneus dos carros dos playboys que iam buscar suas encomendas na periferia, bem longe de suas coberturas.

E foi assim que ele, que agora está na parada do ônibus, aprendeu que pode mais quem bate mais. E ele apanhou. Ele apanhou muito, ainda no ventre quando quem recebia o soco nem era ele. Depois, apanhou por existir, porque tinham raiva, porque tinham bebido, porque tinham cansado de bater nos outros, porque queriam bater, porque ele era daquele jeito, porque tinham raiva e mãos prontas para o murro sempre. Apanhou quieto e aos prantos, mas sempre apanhou. A vida também não lhe poupou. Bateram nele porque tinham raiva de si, do que se tornaram e porque tinham medo do que ele seria e do que a vida podia fazer com ele. Ele apanhou sem ter chance ou tempo de descobrir quem era e o que queria ser da vida.

Teve um dia que ele apanhou na escola. Ele chegou em casa dasabafando toda humilhação e dor que sentia no peito e foi aí que ele apanhou de novo. Seu pai lhe disse que ele ia apanhar porque tinha apanhado na escola e que da próxima vez que brigassem com ele, ele apanharia dobrado por não ter se defendido. Essa foi a única vez que ele recebeu uma justificativa pela sova que levou. Ele apanhou e agora quer bater, agora usa a raiva para mascarar tudo que há de podre no mundo e para justificar cada agressão que comete mesmo sem usar as mãos. Quem disse que mãos são necessárias quando ele tem uma camiseta que, só de olhar, me fere a alma?

Hoje, enquanto eu o observo na parada do ônibus usando uma camiseta com a estampa de um homem fazendo sinal de armas com as mãos, eu sinto o medo que ele sentia quando apanhava sem ter culpa de nada, só por existir. Eu sinto a raiva dele e percebo o quanto um artigo antes do substantivo muda o sentido de uma frase. Talvez ele não tenha recebido a mesma oportunidade que eu de perceber as coisas.

Eu sei que ele, que cresceu apanhando, só conhece o tapa como voz, seu diálogo é o grito que brota do peito estufado, exatamente como aprendeu em casa. Eu sei que ele confundiu o medo que sentia com o respeito que gostaria de ter e, agora, é um homem feito que inspira medo para ser respeitado. Para tentar ser respeitado. Ele quer uma arma na cintura e que eu fique quietinha mas eu não fico, o meu ônibus vem, eu vou e passo por mais uma linha (de ônibus e da página).

Ele ficou para trás, na vida, no itinerário e no tempo, aquele homem sem nome e com tanto ódio estampado numa camiseta. Será que quando ele a estende no varal pinga sangue ou pingam lágrimas?

Aquele homem que se apoia numa camiseta e na vontade de provar sua masculinidade a qualquer custo, identificando-se com qualquer um que reforce tudo o que ele aprendeu que significa ser homem e forte… Aquele homem usa uma camiseta para dizer a si mesmo que é homem e eu não sabia que isso era necessário para saber o que a gente realmente é. Será que ele tem dúvida? Será que a raiva que expressa é o medo de ser alvo do preconceito que ele ajuda a naturalizar e dar ainda mais força?

A camiseta dele tem entrelinhas e é melhor já ir se acostumando com quem precisa de uma camiseta ou uma arma que lhe diga todos os dias qual é a voz mais forte. Mas eu não, eu não me acostumo e é melhor ele já ir se arrependendo. Ele precisa de uma camiseta, eu preciso de um lápis. Ele precisa de uma arma, eu preciso de um livro. Ele acha que tá certo, tá ok? Não, não tá nada ok, ainda mais se você chegou até essa linha lembrando de alguém ou que alguém próximo a você também usa essa maldita camiseta, esse uniforme do ódio que nos fez marchar para trás.

Caroline Domingos

Caroline Domingos

É jornalista, estudante de Letras, pesquisadora noAcervo Literário Josué Guimarães.
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