Florbela Espanca

Florbela Espanca: A poetisa eleita

Florbela Espanca, uma mulher fora de sua época. Da sua escrita fez um meio para a expressão dos anseios humanos, das dores que sentia e, principalmente, da alma feminina que pedia a liberdade, liberdade que conseguiu alcançar com a arte de versejar.

Ela contrariou os valores morais da época, o que lhe rendeu duras críticas. A poesia de Florbela reflete à mulher ocultada pelo mundo masculino, calada e punida por sua sensualidade.

Tive meu primeiro contato com Florbela Espanca quando frequentava as aulas de teatro ao fazer a leitura do poema “Eu”.

Eu

Eu sou a que no mundo anda perdida,

 Eu sou a que na vida não tem norte,

 Sou a irmã do Sonho, e desta sorte

 Sou a crucificada … a dolorida …

No poema “Eu”, temos a descrição desse sujeito feminino, descrito de forma brutal, a própria mulher de desejo, a poetisa, ignorada e incompreendida pela sociedade tradicional, onde o destino lhe é banido, mulher que sonha que deseja, mas que parece invisível para sociedade.

Ainda bela? Dirá a história. Dirá o cânon literário.

Florbela Espanca (4)

Artista da palavra, escritora da Saudade, do amor, da beleza e da dor, palavras ditas com tamanha intensidade que dificilmente sairemos ilesos a elas.

Perturbador é a palavra que encontro para tentar descrever seus poemas. Não poderia ser de outra maneira, afinal trata-se de uma poetisa de alma profunda, reveladora, vivaz e inteligente. Mulher, demasiado mulher, tomada pelo furor poético.

Florbela soube expor sua existência dolorida nos escritos de seus sonetos angustiados que exprimiam sua condição sentimental.

Manifestação absoluta do seu “eu” inquieto. Florbela Espanca, nos provincianos e retrógrados anos (1894-1930) de Portugal, ousou pela sinceridade e originalidade da obra poética, uma genuína expressão da “literatura viva”.

Sua poesia mostra a busca de algo inatingível. Seus sonetos a fizeram ser reconhecida, a “poetisa eleita”.

Desafortunada? Talvez, mas quem pode dizer que ela não tentou ser feliz da melhor forma que pôde, como esposa, filha, irmã e mãe? Falhou. Toda sua vida foi repleta de dor, onde nada a satisfazia.

Florbela Espanca (3)

Dona de um coração transtornado e bem pouco apto à vida. Nota-se em seus sonetos um relato humano e de aparência simples, contudo muitas vezes obscuro.

A perturbação talvez seja uma exteriorização extrema de sentimentos banais e taciturnos dentro de nós. Ao expor o que sente o perturbado coloca em evidência aquilo que nos perturba também. E assim geramos com ele um reconhecimento intrínseco e por vezes involuntário.

A vida amorosa de Florbela resume-se a três casamentos, dois divórcios e uma paixão platônica em seus 36 anos de vida. Tinha sede infinita de um amor que está aquém do que é humano. Florbela Espanca, perseguiu o ideal do amor. Não seria errado afirmar que ela nunca tenha amado, embora tenha tentado, e vivido com intensidade o despertar das paixões.

Podemos por vezes encontrar uma predisposição narcisista nas palavras da poetisa, mas o que ela não é, exatamente, é culpada. Afinal, quantos de nós temos a coragem de assumir que somos incapazes da verdadeira entrega, amar, muito embora continuamos buscando e acreditando?

Escrevia cartas para esses homens, nas quais dizia estar amando perdidamente, envolvia-os com o encanto da sua poesia, fazia com que eles se sentissem amados, até que a realidade, o cotidiano aparecia e ela tornava-se fria, indiferente e insatisfeita.

Florbela Espanca (2)

Na obra “Charneca em Flor”, no poema Ambiciosa, parece reconhecer tal insatisfação.

O amor dum homem? – Terra tão pisada!

 Gota de chuva ao vento baloiçada…

 Um homem? – Quando eu sonho o amor dum deus!…

Mais uma vez, seria ela responsável por isso? Já que muitos são movidos pelo desafio de conseguir algo, mas e depois? Quantos não se mostram desinteressados após obter o tal desejo?

No fundo toda historia de Florbela Espanca é a história de alguém pensando em encontrar um amor e, no entanto, encontra-se apenas um refugio para a solidão da qual poucos podem nos tirar.

Se a Flor ainda é bela? Sim, belíssima!