Programa para hoje a noite? Sonhos lúcidos!

E se, por um momento, seus sonhos se tornassem realidade? Viajar para Paris. Tomar um café na antiga Istanbul. Conhecer a América antes da conquista. Ter uma noite de “vale tudo” com a mulher (ou o homem) dos seus sonhos. Voar dentro e fora do planeta. Conversar com aquele autor ou músico que tanto influenciou a sua vida, (coloque aqui os seus)… Mas espera, o que define “realidade” mesmo? Para o fundador do pensamento moderno, o maconheiro francês Descartes, isso tinha mais a ver com uma percepção clara e essencialmente racional do que com as informações ditas físicas. Aliás, todo o método cartesiano foi desenvolvido a partir do famoso argumento do sonho, onde o francês afirmava “vejo tão manifestamente que não há indícios concludentes, nem marcas suficientemente seguras através das quais se possa distinguir a vigília do sono”. Então, para Descartes, não fazia tanta diferença assim a vida noturna, que toma um terço da nossa existência, e a vida daqueles que caminham sob o sol diurno. Da mesma forma outros filósofos ocidentais (como Berkeley por exemplo) e grande parte do pensamento oriental tradicional acabaram por desconfiar dessa nossa divisão maniqueísta entre sonho e vigília.

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Como diferenciar o sonho da vigília era a principal pergunta de Descartes

Se você parar para pensar o que diferencia nossa vida diária dos sonhos que temos a noite é, por um lado, a consciência aparentemente ampliada (a vida parece mais “real”) e, por outro, a sensação de continuidade que experimentamos de um dia para o outro. Mas se essa sensação de continuidade fosse quebrada como na comédia cheia de estrogênio e progesterona “Como se fosse a primeira vez”? Ou ainda, se refletimos um pouco percebemos também que se trata apenas de uma questão temporal, nossa vida pode ser vista como um sonho longo do qual não tínhamos consciência antes de nascer e vamos perde-la após a morte.

Na psicanálise freudiana o sonho é visto como uma ferramente preciosa para o autoconhecimento, mas sempre está em função da normose cotidiana. Já para Jung a vida onírica poderia assumir um papel tão importante quanto a vigília, eram nesses campos do inconsciente que poderíamos encontrar as ferramentas mais poderosas para o processo de individuação. O próprio suíço dizia possuir um “guia” nos domínios de Morpheus chamado Filemon. William Blake também afirmava ter aprendido desenho, música e poesia nesse reino obscuro, inclusive dando detalhes através de suas gravuras. O professor de filosofia e história Robert Moss faz um grande apanhado desses casos no seu livro “The secret history of dreaming” citando desde a clássica história de Joana D’arc até Mark Twain. Mas é óbvio, você deve já ter percebido, não falamos de sonhos ordinários aqui, estamos nos referindo ao processo do sonho somado a uma consciência similar ao estado de vigília.

Uma boa trilha para começar

Viajar pelos sonhos, projeções astrais, atravessar o umbral do mundo oculto da própria morte era uma das tarefas ancestrais dos visionários em várias culturas. Desde os antigos xamãs americanos até os sufis islâmicos. Falando nisso, outro livro que vale a leitura é “Chuva de estrelas” do grande Peter Lamborn Wilson (Hakim Bey), que faz uma comparação entre a tradição do sonho iniciático no sufismo e no taoísmo. Além disso, o budismo e o hinduísmo são também dois grandes exemplos de tradições que exploram à milênios técnicas visando o uso do sonho de maneira criativa. Em seu livro “The tibetan yogas of dream and sleep” (publicado no Brasil pela Devir) Tenzin Wangyal Rinpoche explora a antiga prática dos yoguis tibenatos de dominar o sono como uma preparação para a morte. Para o praticante não se trata de dar qualquer realidade à experiência do sonho, mas sim constatar que a própria vigília se assemelha ao mundo onírico e que o processo da morte (chamado bardo) também não difere muito deste. Então aquele que domina esse tipo de procedimento pode lidar de uma maneira apropriada com o fim dessa vida e, de acordo com o Livro tibetano dos mortos, até alcançar a iluminação.

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O sufismo islâmico busca a divindade na música, no amor e no êxtase!

Bom, só falei de livros até agora, mas vários filmes já trataram do tema. Se o mais famoso é de longe Inception (2010) talvez o mais fascinante deles seja Waking Life (2001) do diretor Richard Linklater. Todo construído por meio de rotoscopia o filme aborda vários diálogos desconexos em um ambiente de sonho envolvendo filosofia, psicologia e várias dicas práticas que podem ser muito úteis para o onironauta. Além desses vale a pena citar Abre los Ojos (1997) com Penélope Cruz, filme de deu origem ao remake Vanilla Sky (2001)- onde Tom Cruise interpreta seu costumeiro papel… Tom Cruise! – o anime Paprika (2006), The Good Night (2007) com Danny de Vito, o ótimo Science of Sleep (2007) com Gael Garcia Bernal – junto com a feia mais bonita do mundo Charlotte Gainsbourg – e até mesmo o nosso velho conhecido Matrix (1999) precisa entrar na lista.

O truque é combinar as suas habilidades racionais com as infinitas possibilidades do sonho!

Todo esse material cultural pode fornecer inspiração e uma boa dose de vontade mas, afinal, como fazer isso tudo funcionar na prática? Existem muitas técnicas simples para o antes, durante e depois de uma experiência de sonho lúcido. O mais importante são as preparações durante o dia, elas que vão pavimentar o caminho do onironauta. Preste atenção! Sim, atenção plena durante o dia, sem ficar tenso observe as coisas, pessoas e lugares do dia e repetidas vezes pergunte a si mesmo “isso é um sonho?”. Concentração é essencial! Meditação diária (nem que sejam 10 minutos ao acordar e outros 10 antes de dormir) também ajuda. Uma boa dica é escolher um objeto que vai servir de lembrança para essa qualidade onírica do dia-a-dia. Uma coisa comum do seu dia, se você trabalha num escritório pode, por exemplo, ser um grampeador ou ainda algo mais abstrato como a cor vermelha. Sempre que se deparar com esse objeto você deve voltar a se perguntar “isso é um sonho?” e partir para as técnicas de verificação. Essas verificações são simples, você pode tentar acender e apagar a luz do ambiente, pode tentar voar com um pequeno pulo (discreto, por favor) ou imaginar qualquer coisa do tipo esticar um dedo como se fosse um elástico.

Veja a sequência de vídeos do Denis Lee, o chino dá umas dicas fantásticas!

Durante a noite, especialmente na hora de dormir, procure ter uma rotina mais calma. Prefira atividades como leitura, músicas não muito agitadas e mantenha uma certa disciplina com relação aos horários do sono. Não seja pinguço, deixe o álcool para noites de farra, ele impede a concentração e perturba o sono. Quando deitar procure se concentrar nos processos naturais do corpo que vão levando até o sono. Se você tem insônia já é uma questão mais complexa, muitas vezes com raízes psicológicas profundas, mas todas as dicas que dei até agora vão ajudar inclusive a superar isso. Então, é muito raro a pessoa já iniciar seu sono tendo um sonho lúcido, normalmente eles ocorrem por meio do reflexo da sua atenção e verificações diárias mas somente após os primeiros estágios do sono. Um conselho importantíssimo no momento que você se der conta que está sonhando é não se apavorar, entusiasmar ou ficar muito excitado. Seja um gentleman com o sonho my friend, sem emoções fortes! Elas desestabilizam a experiência e vão te fazer acordar ou perder a consciência novamente. Com o tempo você pega o jeito.  Se conseguiu aproveite, com um pouco de esforço os lapsos de consciência vão se tornando mais longos e frequentes, mas lembre-se: não existe nada de extraordinário nisso, o objetivo aqui é justamente questionar nosso conceito de realidade ordinária.

Uma boa trilha para terminar

Para concluir, ao acordar fique alguns momentos parados na cama e tente lembrar dos seu sonhos. Isso é muito importante, muitas vezes temos experiências mas simplesmente não lembramos, então não se mexa. Outra manha é manter sempre do lado da cama um diário de sonhos. Não importa o que você pensa, sua memória é uma merda! O diário é importantíssimo para relacionar idéias, sequências de sonhos, simbolismo e assim por diante. Se você realmente pensa em usar isso para se conhecer melhor manter essas anotações é imprescindível, com elas você pode fazer uma relação direta com sua vida diária e sua própria mente (sonho=vida=mente). Se ainda existem questionamentos do por que fazer esse tipo de experiência eu posso responder de várias maneiras. Primeiro, mesmo que não dê certo você vai ficar muito mais atento durante o dia e ter um sono muitas vezes melhor. Segundo, se der certo, as possibilidades são infinitas! É muito melhor que LSD, DMT ou Psilocybe e de graça! Se você é do tipo fanático por eficiência e produção, bem, vai ter um bom tempo (se bem que ele não se aplica aqui) adicional de consciência sem ficar com sono no dia seguinte. Além do fato de poder explorar figuras do inconsciente coletivo e, de acordo com relatos, desenvolver habilidades, aprender línguas, recolher inspirações para criação artística etc. E, por fim, em uma época que poucas pessoas sonham, tornar-se um onironauta é uma das coisas mais revolucionárias que se pode fazer. O sonho cultivado, voluntário e consciente é um ato de terror nessa nossa sociedade industrial. Encare cada um dos seus dias como um sonho, fique atento e viaje todas as noites! Quem sabe a gente se encontra e toma um café na antiga Istambul.

P.S. Se liga, o livro Sonhos lúcidos em 30 dias está aqui completinho pra download (você acha ele também em sebos por R$ 5,00) vale muito a pena dar uma olhada.

P.S.2. Veja o filme Enter the Void do Gaspar Noé, baseado no Livro Tibetano dos Mortos é uma das experiências visuais mais fodas do cinema!

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