Ama-se tudo. Os livros, as comidas, as letras, os textos, os cachorros, os gatos. Ama-se o céu quando está estrelado ou quando é o Sol que faz estampar brilho sobre ele. Ama-se o presente que se ganha sem data marcada, os cabelos quando acordam de bom humor, as unhas quando estão crescidas. Ama-se o corpo, caso ele esteja nos padrões ou simplesmente ama-se o corpo, caso ele esteja nos seus padrões, nos seus desejos. Ama-se o feriado, a praia em plena terça-feira, a cerveja muito gelada, o vinho tinto que te espera à noite e a roupa que você vai usar no próximo final de semana.

No século XXI ama-se tudo. Fala-se em amor com uma facilidade nunca vista. Banalizou. Esfriou o sentimento. Tudo agora é passível de amar. E pronunciam-se os fonemas sem medo de reação. Afinal, ama-se até o inanimado. Ama-se a cor da pele, dos olhos, dos cabelos. Ama-se a música que aquele cara faz, o solo que ele tira na guitarra ou o show que ele fez semana passada para um milhão de pessoas. Ama-se um filme, uma reportagem, um programa de TV. Ama-se até o apresentador desse programa, o protagonista do filme e o jornalista que escreveu a reportagem.

Ama-se tudo e ama-se muito, exageradamente, enlouquecidamente. Amanhã? Já se amam outras coisas. Amam-se cheiros, gostos e coisas. Mas esquecem-se das pessoas. Aliás, lembram-se incansavelmente, às vezes. Estão a pronunciar o “eu te amo” com a facilidade do “bom dia”, porque todos sabem: amanhã é incerto. Sorte daqueles que amam à moda antiga, que apaixonam-se e esperam o momento mais oportuno – não sem ansiedade ou nervosismo – para dizer que ama. Sorte daqueles que conseguem fugir um pouco da efemeridade do amor do século XXI, dessa capacidade ofensiva de amar tudo e nada ao mesmo tempo; de se declarar no sábado e morrer de amores por outra pessoa no domingo.

Não se ama mais como antigamente. Não se declara mais amor. É mais importante mostrar que está com o outro do que fazê-lo sentir sua presença. É mais importante nomear aquele relacionamento do que realmente manter uma relação afetiva, amorosa e sincera com o outro. É mais importante ter alguém do que simplesmente ser feliz. Vejo muitos casais de mãos dadas por fachada. Juntos por convenção. Namorados por um “relacionamento sério” no Facebook.

Ama-se quase tudo. “Eu amo essa bolsa”, “eu amo esse casaco”, “eu amo essa caneta”, “eu amo esse computador”. Amar é uma coisa, gostar é outra. Gostar é uma coisa, apreciar é outra. Apreciar é uma coisa, simpatizar é outra. Portanto, goste e ame pessoas. Amem-se uns aos outros. E revele. Revele sempre que for verdadeiro, sincero. Não o faça por agrado, muito menos por impulso. Amar é um caso sério. É simples, transparece na gratidão e no olhar. Mas não é vendido no Atacadão de 1,99.  Não se encontra nas prateleiras dos supermercados. Não há código de barras. Não há etiquetas. Não ama-se pelo valor, mas pelo que não se compra, não se vende e não se rotula.

O amor do século XXI é palpável. Ou pelo menos é assim que ele é tratado. Não mais se sente, mas tem-se o amor em mãos, na maior das utopias. Nunca pensei que aquela frase que tanto se ver na internet realmente fosse fazer um sentido tão nítido:

Se as coisas foram feitas para usarmos e as pessoas para amarmos, então por que usam-se as pessoas e amam-se as coisas?

Hoje ela chega a descrever a nossa sociedade. Vivemos um amor incrédulo e deixamos pra trás um amor inédito. Substituímos o “para sempre” por mais uma noite. Substanciamos-nos de um sentimento que nomearam de amor. Mas amor já existe e nada se parece com o que se vive hoje. Estamos deixando pra trás o beijo na testa e esquecendo até de apertar as mãos num cumprimento. Ama-se pela palavra e não mais pelo coração. Estamos trocando a felicidade pela alegria.