Em 2019, a maior lição que a produção e organização do Psicodália poderiam nos dar foi entregue com sucesso: é muito importante que festivais como esse não parem de acontecer.

Jamais.

É oxigênio demais para uma cena independente que ainda é muito carente de iniciativas como essa.

O que vocês vão ler a seguir é um relato diário do que mais me chamou a atenção durante o Psicodália em 2019, musicalmente falando. Dê play em algum artista que participou dessa festa e chega mais!

Ah, se quiser ver mais registros, saca só essa galeria fotográfica: Psicodália 2019: confira 90 fotos do festival.

Foto: Gui Benck

Sexta

Tão logo a festa de boas vindas acabou, o público sabia que o feriado tinha começado oficialmente depois que o Samuca decretou: “bem vindos à selva”. Com um show classudo demais – acho que eu nem tinha vestimenta pra acompanhar esse espetáculo – o combo chegou embalado no groove, apostando no repertório de seu disco mais recente, o elogiado “Tudo que Move é Sagrado”, lançado em 2018.

Com aquele swing todo trampado na malemolência, o grupo não só valoriza o trabalho do Ronaldo Bastos compositor, como também consegue subverter toda essa importância histórica do contexto do movimento do Clube da Esquina, atualizando o hardware do sotaque mineiro da década de 70.

Foi um show bem roteirizado e instrumentalmente muito rico. É interessante observar como a banda trabalha com os ritmos brasileiros, sem chover no molhado.

Essa frase ficou muito boa até pra servir de ponte para o show que veio a seguir. Amaro Freitas (piano), Hugo Medeiros (bateria) e Jean Elton (baixo) chegaram em trio para colocar as visões regionais dos ritmos brasileiros pra groovar junto ao Jazz.

Nós entrevistamos o pianista pernambucano antes do festival – durante o show de lançamento de seu elogiadíssimo segundo disco – o excelente “Rasif”, liberado em solo britânico via Far Out Recordings. No show do Dália, diferente do auditório do teatro do Sesc Pompéia, Amaro e cia se beneficiaram de um formato mais enxuto pra mostrar o quão pesado o Jazz pode ser.

Numa dinâmica muito percussiva e repleta de elementos brasileiríssimos, como o Maxixe, Ciranda e Frevo, Amaro mostrou seu vigoroso estilo ao piano, sempre com embates épicos ao lado da milimétrica bateria de Hugo Medeiros e do sempre criativo rabecão de Jean Elton.

O set passou fervoroso pelos olhos e ouvidos de um público completamente perplexo com o que estava acontecendo sob o palco. As cabeças balançavam como se estivessem imersas no mais intenso bate-cabeça… Foi um set primoroso, tão poderoso quanto o repertório do disco em questão.

Um dos claros indícios de como o festival está expandindo seu leque de sons, a presença de Amaro mostra como o Jazz segue em pauta. Tão logo o show acabou, o pianista já se despediu da rapazeada por que eles ainda tinham que ir para o Recife, afinal de contas o trio estava no line up do Rec-Beat. E depois ainda tem gente que fala que o Jazz é suave… Essa galera de Rasif aí é Punk demais.

Apesar do primeiro dia ser mais curto, os shows foram memoráveis. Eu tive que tomar uma cerveja depois do show do Amaro até pra conseguir digerir tudo que aconteceu. Nem tive muito tempo, tão logo flagrei o relógio, faltavam apenas 20 minutos para a Elza Soares encerrar o primeiro dia de shows no Palco Lunar.

Foto: Gui Benck

Em 2016 Elza foi para o Dália com o espetáculo “A Mulher no Fim do Mundo”. Em 2019 ela voltou com um novo repertório, ainda mais atual e tão impactante e inventivo quanto o anterior. Com “Deus é Mulher”, Elza mostra como a luta frente a representatividade é uma batalha diária. Com um som que segue explorando elementos eletrônicos e outras pirotecnias contemporâneas, Elza & Banda entregaram um show grandioso, feito por uma artista que do alto de seus mais de 80 verões, busca apenas ser mais um agente de mudança.

Foi um longo primeiro dia. O Palco dos Guerreiros reservou grandes momentos para os ouvidos mais resistentes da madrugada. Confesso que foi muito especial ver o Hurtmold tocando num lugar tão especial para a equipe do La Parola. Depois de tantos anos cobrindo o festival, o maior hobby da nossa equipe é imaginar… Pensar numa banda como o próprio Hurtmold e vislumbrar: “imagina esse show no Dália cara”.

Ano após ano é lindo ver esses resgates e esses sonhos realizados. Não teve como ouvir alguns temas do “Cozido” – segundo disco dos caras, liberado em 2002 – e não ficar com os olhos marejados. O minimalismo, o sentimento, o telepático entrosamento e a química dos orvalhos esfriando os ânimos da alvorada. Foi especial.

Sábado

O sábado recebeu as primeiras 24 horas dedicadas ao shows & oficinas do Dália. A programação começou cedo, mas quem levantou junto com o Galo foi muito bem recompensado. Em 2018 um dos maiores destaques do Psicodália foi o Palco do Lado. Em 2019 ele não só voltou reformado, como também chegou promovendo singelas estreias, como foi o caso do show da Gali. Grupo formado por musicistas de diferentes partes do Brasil, essa união surgiu com Camila Garófalo no ponto central do vórtex sonoro.

Cantora e compositora, Camila é também uma violeira com grande tato. Mostrando a força da viola caipira num som que beira o Folk e o Southern-Rock com fortes temáticas sobre o poder de cura da estrada, a banda fez seu primeiro show, estreando num dos maiores palcos do país.

Não só foi uma grande responsabilidade, como também foi um dos melhores shows desse palco. Com uma riqueza instrumental digna de nota, o quinteto feminino veio com baixo, bateria, violino, sith e viola, tudo pra mais uma vez ressaltar o protagonismo feminino e a força de um movimento que mostra como não existem protagonistas ou coadjuvantes quando o objetivo é a conquista de um bem comum.

Ainda no Lago, o próximo show veio com uma ideia completamente diferente. Diretamente do Rio de Janeiro, com o repertório do show AWÓ, o quarteto As Iyagbás entregou um espetáculo que mais do que danças e intervenções rítmicas, busca ressaltar as tradições africanas, sempre utilizando o corpo como o primeiro instrumento.

Naná Vasconcelos dizia que o primeiro instrumento é o corpo. Nesse show em específico essa frase é uma descrição chave para começar a falar desse som, pois o maior legado dessa cozinha é promover um encontro entre os ritmos africanos, sempre em conexão com os ritmos afro brasileiros e a cultura popular. Foi um show de energia bastante intensa, mas a atmosfera era tão leve como uma pena planando no bailar dos ventos sul.

A plateia mostrou grande sinergia com a celebração que estava acontecendo no palco. Foi um lance de interpretação bastante pessoal e deveras ritualístico, mas ainda assim foi uma experiência que mais do carregar os corpos presentes, fez questão de ajudá-los a ficarem mais leves e menos polarizados.

Depois desse show confesso que tirei um tempo pra pensar. Voltei à programação normal para ver um dos shows mais peculiares do festival todo, já algumas horas depois. Com a psicodelia pouco ortodoxa do Irmão Victor, o público do Psicodália teve acesso a um som no mínimo interessante, não só em termos de formato, mas também de conteúdo.

Foto: Gui Benck

Com um instrumental bem pautado num som de Jam Band, a dinâmica do grupo entrega composições sinuosas e com um approach vocal muito doido, com letras que mais pareciam um conjunto de flashbacks de ácido compilados num disco só.

O resultado? Um quarteto do sul do Brasil que consegue fazer um groove pra uma lasanha, um gato diabólico e velhos que bocejam. É tão maluco quanto parece. A pira foi tanta que eu tive que tomar uma gela enquanto esperava pela viola da hermana Sofia Viola.

Com um quê trovadoresco, a argentina fez um show cativante e que foi a primeira amostra do que os nossos amigos de América Latina estão produzindo. Tem coisas muito bacanas rolando e esse show foi uma prova disso, junto com o Chico Trujillo, mas calma que eu já chego lá.

Depois foi a vez do Tom Zé. Um show que foi o reflexo brilhante e genial do artista. Acredito que apesar dos problemas técnicos, a maior lição de um dos maiores compositores brasileiros de todos os tempos foi justamente a forma como ele respeitou seu público.

Foto: Gui Benck

Estava rolando uma passagem de som bem junto com o show do Tom e, por isso, ninguém parecia se ouvir. Ele batalhou pra cumprir o itinerário de sua apresentação, mas não gostou da falta de suporte e dos problemas que tanto atrapalharam o som.

Mas o Tom Zé é o Tom Zé. Com um som ainda vacilante, o cara foi lá e chamou a plateia no gogó. Teve música especial para o Psicodália e o que fica… Ah, o que fica é isso aqui: Obrigado Tom! Que mais pessoas sintam essa grandeza que você carrega com a naturalidade de uma criança.

Passados já algumas horas, era chegada o momento da programação noturna. No palco Lunar, o público esperava por Xenia França, que no dia de seu aniversário, não poderia ter ganho um presente melhor do que um coro de parabéns pra você.

Com um dos shows mais disputados da cena, Xenia é mais um nome que vem ganhando não só reconhecimento, mas principalmente espaço nos maiores palcos do Brasil. Dona de uma voz doce e de uma baianidade cósmica que de fato eleva os ouvidos que ficam expostos a sua voz, esse show foi um dos pontos altos do festival.

Com um repertório e uma banda azeitadíssima, gostaria de destacar o trampo do baixista Robinho Tavares. A abordagem percussiva de suas notas graves deixavam o som pulsando ainda mais forte, com uma performance de grande brilho e luxuriosa luz própria.

Pouco tempo depois, nossa equipe estava na correria novamente pra poder mandar um jantinha antes do show do Cordel de Fogo Encantado, um dos shows mais esperados de toda a programação do evento.

O palco é pernambuco, mais uma vez. O background? A saudosa literatura de cordel e no plano de voo um som interdisciplinar que eleva o poder imagético e lúdico da linguagem.

Foi uma bela troca entre público e plateia, mas olha, ouso dizer que a pressão foi ainda maior quando a Dona Onete encerrou a programação do Palco Lunar com um bailão de respeito.

A Dona Onete é uma cantora, compositora e poetisa do Pará. Hoje, quem vê um show dessa nobre senhora não consegue acreditar que do alto de seus 79 verões paraenses não existam ao menos 30 anos de carreira.

Digo isso, pois bastam 10 minutos no show dela pra você sacar a potência do Carimbó. Ninguém ficou parado e o bailão foi noite adentro enquanto a Dona Oneta se esbaldava, cantando temais de seu primeiro disco, “Feitiço Caboclo” (2012) e do segundo e mais recente, “Banzeiro” (2016).

Eu confesso que fiquei de cara. 1 hora da manhã e ela seguia acordadíssima, enquanto a sua avó já foi dormir 3 vezes. Foi a maior festança do festival. Tem que respeitar o Carimbó Fumegado, papai.

Depois do show da Dona Onete meu joelho já começou a vacilar e o momento não poderia ser pior. Eram pouco mais de duas horas da manhã quando Kiko Dinucci veio destilar os seus Cortes Curtos. O potente show do guitarrista natural de Guarulhos coloca a guitarra no centro de uma cozinha carne de pescoço.

Foto: Gui Benck

A grande piração é como ele encurta distâncias estéticas com apenas um riff. É justamente dessa forma livre como ele emula o samba numa roda Punk, que é possível observar como a nossa música ainda pode subverter muita coisa pra seguir retratando nosso flagelo moderno, enquanto somos esnobados pela Morena do Facebook.

Domingo

O domingo foi um dia surpreendente. Musicalmente, começou só às 14h, mas acredito que não teve uma hora melhor para contemplar o trampo do Gloire Illonde. Nascido na República Democrática do Congo, mais especificamente na cidade de Kinshasa, a arte interdisciplinar do rapaz engloba elementos como a cerâmica e a pintura, além da música e trabalhos audiovisuais.

Foto: Gui Benck

Em 2018, Gloire lançou o que foi, indiscutivelmente, um dos melhores discos independentes lançados no ano passado. Ao lado do envenenadíssimo combo instrumental da Brass Groove Brasil – o cantor que há 7 anos mora em Florianópolis – consegue promover um elo muito rico entre raízes, o Funk, R&B e a força rítmica da percussão. Tão competente e fiel ao que foi eternizado em “Sambolê”, o show do meliante foi o maior barato.

A galera ia passando pelas adjacências do palco e ia ficando… Foi massa vê-lo sob o palco, com um notório brilho no olhar e um tesão por estar fazendo parte daquilo tudo.

Logo depois era a vez do Corte fazer sua estréia no Psicodália. Grupo formado por Daniel Gralha (trompete), Cuca Ferreira (saxofone), Marcelo Dworecki (baixo/guitarra), Alzira Espindola (voz/baixo) e Fernando Thomaz (bateria), o som fruto dessa união é uma das coisas mais interessantes que apareceram na cena nacional nos últimos tempos.

Foto: Gui Benck

Fundada a partir do Bixiga 70, o grupo surgiu em 2015. Agitado pelo Marcelo Dworecki, a banda está na ativa desde 2015 e conta com um disco homônimo, lançado em 2017. O som, no entanto, não tem nenhuma relação com o Afrobeat abrasileirado do Bixiga.

No Corte a dinâmica se dá de maneira diferente. O trampo de metais, por exemplo, anda em paralelo, promovendo interlúdios que estabelecem verdadeiras conversas entre o sax e o trompete. Em função do trampo de baixo, bateria e guitarra, a cozinha vira um Rock ‘n’ Roll com uma pegada de bat-macumba muito original.

A presença de Alzira adiciona um elemento bruxólico no som. As letras funcionam como um  verdadeiro fluxo de consciência e quando ela vai para o baixo e o Marcelo pega a guitarra, o groove se mantém, meio experimental e ancestral.

É ríspido, seco e em termos de dinâmica muito interessante. Foi mais um show que colocou o Jazz na mente da galera – de alguma forma – e a resposta do público foi muito positiva. Destaco o trampo do baterista Fernando Thomaz, que acompanhou toda essa cozinha com um estilo muito leve e vistoso que consegue cumprir a difícil tarefa de acompanhar essa fritação toda.

Nessa hora a temperatura em Rio Negrinho era alta. O tempo foi muito bondoso com o carnavalesco esse ano. Só choveu uma vez ao longo de 5 dias. As tardes eram quentes e conforme o céu escurecia as estrelas recebiam a queda de temperatura ao som dos orvalhos.

Azymuth tocou nesse meio tempo, fechando a programação do Palco do Sol e vou lhe contar, poucas coisas são tão bonitas quanto um fim de tarde ao som de Azymuth. Com um show antológico, a vanguarda nacional do swing gastou o Funk, brincou com a linguagem do Jazz e chamou o Samba pra groovar o Psicodália.

Sabe aquele som cremoso? O groove é isso. Aquela batera fazendo só a caixa e você já com a cara magoada. Aquele teclado na estica fazendo a cama em “Voo Sobre o Horizonte”. Foi um momento especial, quase sinestésico.

E foi sobre essa aura magnífica que saí dançando Bob Dylan pelo show da Lucinha Turnbull. O repertório orbitou o Blues-Rock e sob o palco, era nítido como a pioneira guitarrista paulista estava feliz e à vontade. Só faltou tocar uma guitarra baiana, mas isso ficou sob a responsabilidade do Pepeu Gomes.

O único problema no show do Pepeu foi que os músicos pareciam não se ouvir. As guitarras estavam oscilando, mas o grupo fez o possível para emular a verdadeira guitarrada que é o repertório do “Geração do Som”, primeiro disco solo do guitarrista, lançado em 1978.

Acredito que a qualidade do show foi prejudicada pelo som que estava meio vacilante. Pepeu deu claro indícios que pouco se ouvia, mas o som se manteve sempre em plena reverberação e depois eu encerrei meu domingo ouvindo muita Cumbia. Talvez essa seja a maior responsável pela dor do meu joelho, a Chico Trujillo.

Foto: Gui Benck

Banda chilena que parece uma versão com mais groove da multiétnica Gogol Bordello, o som dos caras não é o Carimbó da Dona Onete, mas colocou todo o Palco dos Guerreiros no bolso. Ninguém ficou parado, mas depois parecia que você tinha sido atropelado por um ônibus.

Segunda

Devido ao impacto de todo o Reggae, Ska e Cumbia da noite anterior, confesso que minha segunda feira começou só as 18h. Depois de muito dorflex e uma cerveja – porque ninguém é de ferro – desci para começar a me recuperar ao som de Anelis Assumpção.

Anelis, mais do que uma trilha sonora, resolveu dois problemas pra mim. O primeiro deles foi que rolou um Dub no show, algo que eu acho que está em falta no Dália, até mesmo na programação da Rádio. Anelis não só botou seu enorme vocabulário pra funcionar – com aquela reggaeira jamaicana por um rápido momento – como ainda chegou com outras referências quando começou o repertório de “Taurina”, seu terceiro e elogiado disco de estúdio, lançado em 2018.

Um dos shows mais aguardados do festival, vê-la ao vivo no Psicodália pareceu um prêmio e eu senti que estava no lugar certo, na hora certa. Aliás, essa sensação perdurou por toda segunda-feira. Quando o relógio marcou 22h então, aí foi a hora da Hermetagem.

Compacto, com André Marques (piano), JP (saxofone), Ajurinã (bateria), Itiberê Swarg (baixo) e Fabio Pascoal, Hermeto & Grupo – sob a batuta do repertório do disco “No Mundo dos Sons”, lançado em 2017 via Selo SESC – mostraram as nuances da música improvisada.

Foi uma grande oportunidade para se compreender um pouco mais sobre o caráter volátil da musicalidade de Hermeto Pascoal. A produção do multi-instrumentista segue muito ativa nos últimos anos e a música universal mostra como não existem limites para a exploração sonora.

Foto: Gui Benck

Vale ressaltar que o show do Hermeto também teve que superar alguns problemas técnicos. O vocal do homem de gelo estava baixíssimo e depois de regulado, seu teclado morreu, mas o velhaco já foi para o piano até a situação ser regularizada cerca de 5 minutos depois.

Ainda nesse ponto sobre o som, vale ressaltar que as bandas que trouxeram técnico fizeram os melhores shows do festival. Abayomy fez isso e trouxe uma incandescente conexão espiritual com o seu Afrobeat carioca.

Já na passagem de som era nítido como a casa ia cair. Eles mandaram um Dub antes e só isso já teria sido um bom sinal. Quando eles estavam passando o baixo de “Malunguinho” eu senti que algo grandioso estava prestes a acontecer. O palco chegou a ficar pequeno, tamanho era o número de integrantes do grupo.

Um dos instrumentais mais ricos do festival, o entrosamento do grupo era hipnótico, a percussão parecia ter entrada na mesma frequência dos corpos da plateia e no fim eu achei que todos dançavam no mesmo ritmo. Foi uma experiência muito forte e enquanto ela ainda latejava minha mente, fiquei estupefato com o show da Picanha de Chernobill.

Foto: Gui Benck

Pelo fato de residir em São Paulo, declaro que estou mimado e vejo o show dos caras praticamente toda semana, em sua residência dominical na paulista. Mas vê-los fechando o Palco dos Guerreiros, já depois das 5 horas manhã foi diferente.

Talvez porque tenha coroado tantos anos de correria por parte da banda. São mais de 10 anos de estrada e isso fica nítido com a seriedade do Blues-Rock que sai dos falantes.

Terça

O último dia de Psicodália é triste, mas não chega a ser um domingo, domingos são bem piores. No entanto, fomos em direção ao groove, mesmo que cambaleantes. No último dia de rolê, no entanto, o nosso cronograma foi mais restrito em função da necessidade de desmontar o acampamento, mas valeu demais a correria pra desfrutar do Culto ao Rim e do Hamilton de Holanda.

Foto: Gui Benck

Um dos grupos de Jazz mais cabulosos de São Paulo, o Culto ao Rim foi mais uma atração Jazzística que ficou no Dália. Dona de um dos melhores shows do festival, o projeto formado por Gabriel Magazza (baixo), Carlinhos Mazzoni (bateria), Rodrigo Passos (guitarra) e Richard Firmino (sopros) trouxe técnico de som, máscaras e um dos shows mais pesados, performáticos e desafiadores do Psicodália.

A proposta do Culto ao Rim é claro: desafiar convenções. Com esse objetivo, músicos de grande poderio técnico e um som que absurda da improvisação, o grupo cria derretidas visões sonoras para o caos contemporâneo. O trabalho de sopros e a bateria merecem grande destaque nessa estrutura. O clima fico muito cósmico-psicodélico.

E pra falar que não choveu no Psicodália, depois de 5 dias de cáustico calor, coube ao Hamilton, fazer sala para a chuva, um detalhe que apenas abrilhantou seu instrumental. O primoroso show de um dos maiores compositores brasileiros colou a galera pra dançar, debaixo de chuva mesmo.

Numa vertigem tropical quente e escarlate, Hamilton desafiou o bandolim uma vez mais, enquanto a plateia sentia a febre de seu fraseado. Hora sambista, algumas vezes enfurnado no choro e de vez em quando na pilha do Jazz, seu som é sempre 100% brasileiro.

Foi o show perfeito para encerrar o Psicodália. Vivemos tempos difíceis e é importante ressaltar a nossa própria cultura. Ela é tudo o que temos e é necessário valorizar essa beleza.

Guilherme Espir

Publicitário em formação, zappamaníaco e escritor de fundo de quintal fissurado em música tal qual um viciado à espera da próxima dose, neste caso aguardando em abstinência para o próximo disco.